"Algo, alguém, algum espírito nos perseguia, a todos nós, através do deserto da vida, e estava determinado a nos apanhar antes que alcançássemos o paraíso.
Naturalmente, agora que reflito sobre isso, trata-se apenas da morte: a morte
vai nos surpreender antes do paraíso. A única coisa pela qual ansiamos em nossos
dias de vida, e que nos faz gemer e suspirar e nos submetermos a todos os tipos
de náuseas singelas, é a lembrança de uma alegria perdida que provavelmente foi
experimentada no útero e que somente poderá ser reproduzida (apesar de odiarmos admitir isso) na morte."Jack Kerouc - On the Road
Há momentos na vida que parece estarmos só deixando as horas passarem, esperando por algo maior, por um instante de felicidade. A sensação de ser apenas um espectro, escorregando pelos vãos das vidas alheias, um mero coadjuvante das histórias de outrem. Nesses momentos, olhamo-nos ao espelho por segundos e não nos reconhecemos e perguntamos para a imagem refletida: 'Quem é você? Meu Deus... sou eu! Por que sou desse jeito?' Quanto mais observamos os pequenos detalhes de nossa face, menos nos parece possível fazer parte daquele corpo. Se lembramos do que fazemos no dia-a-dia, cada vez mais estranho nos tornamos.
Foi em uma dessas viajadas através do espelho que notei, então, que cada mínima atitude tomada influencia na construção do "eu". Estamos em constante modificação, alterando também o rumo da vida de pessoas de quem nem temos noção que possam existir, que por sua vez terão uma reação que nos atingirá direta ou indiretamente, para o bem ou para o mal, imediatamente ou a longo prazo. Ao mesmo tempo que nada está sob o controle de ninguém (porque, por exemplo, mesmo quando acreditamos agir de boa-fé, nossas intenções podem ser interpretadas como vis aos olhos de terceiros), certas coisas acontecem com uma sincronicidade surpreendente e desencadeiam fatos que em instantes mudam nosso rumo drasticamente. Pessoas que sempre estiveram alí, num relance passam a fazer parte de nossa vida, pessoas com as quais mantínhamos conversas supérfluas mostram-se conectados a nós de uma forma que antes não notávamos. Histórias que ouvíamos sem cessar, em dado momento, quando prestamos atenção, parecem contar nossa própria trajetória. Músicas que outrora passavam despercebidas, são tocadas no instante em que procuramos a resposta para algo e então começam a fazer todo o sentido. E se olharmos para trás para tentar vermos como éramos há eras, dividiremos as lembranças em nostalgias e vergonhas. Lembrar do conforto de ser carregado no colo do pai ou de como era receber um beijo de boa noite da mãe enquanto fingia dormir traz lágrimas saudosas, ao passo que chegamos a levar as mãos ao rosto quando recordamos quão ridiculamente nos comportávamos frente aos primeiros amores (e às vezes ainda o fazemos) ou como éramos estúpidos covardes (ou ainda os somos). Entretanto, é a soma de cada uma dessas ações ou inações que fazem de nós as pessoas que somos neste segundo. Sim, estou repetindo-me. É que voltar ao passado faz lembrar também que estamos envelhecendo. Porque ao viver no "piloto automático", não reparamos que o passar do tempo deixa mais do que memórias: deixa marcas, rugas, expressões cada vez mais cansadas, paredes descascadas, cores opacas, chinelos gastos. E reafirma a certeza de que mais dia, menos dia, desapareceremos por completo, sem saber para onde iremos nem o quanto influenciamos no curso da história.
"It seems so unfair
I want to cry"
Cemetry Gates - The Smiths
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